17 de mar de 2012

NOSSA FORÇA

NOSSA FORÇA

Que força é essa que nos faz santa,
fada, musa, bruxa, fera,
e ao mesmo tempo tão criança?

que força é essa que nos sangra,
fere, vibra, pulsa, gera,
escraviza e não nos cansa?

Que força nos abate de repente
como à mais inocente presa
e ao mesmo tempo mostra os dentes,
pele, olhos, garras de tigreza?

Que força é essa assim enorme
que nos afoga e nos consome
em prantos, fogo e fome?

Ao que então não mais nos fere,
antes, mais nos fortalece
as fibras, em conforto e prece.

Será essa força tamanha
a potência das entranhas:
útero, ovários, mamas?

Ser mulher é força estranha
É ter com Deus uma aliança:
Deixar ao mundo Sua herança,
ainda que tão humanas...

4 de jul de 2011

DEUS EM MIM

Meu coração Mandala
É cósmica Cabala
Caboclo, Cigano,
Tem penas, cachimbo,
Bate tambor
Bombeia o Vinho
na ginga dos guizos
Pulsa de Amor

Meu coração peregrino
Reverencia o Divino
dos Quatro Elementos:
Terra, Água, Fogo e Ar
É Raiz de incenso,
Cachoeira, Água do mar
É Fogueira ardendo,
Um Astro a voar

Anjo guerreiro,
Coração feiticeiro,
É Casca, Semente,
É Chá de curar
Madre pérola pingente,
Hóstia sagrada, Patuá.
Bola de cristal vidente,
Templo e Altar

Meu coração tão místico
É meu Deus esotérico
Criador de feitiços,
Magia e Mistério
A Verdade da Vida
É o Dono de mim
Minha Essência divina
Meu Princípio e meu Fim.

30 de mai de 2011

Inteligência cria bomba atômica

No tablado, um corpo enorme entre correntes.
Destroçado.
Monstro torturado.
Sob a máscara de ferro
pura feiura,
olhos minúsculos, atrofiados.

Não vê?
Esse corpo que não sentes
é você.
Seu corpo e sua mente
que mantens sob correntes
só para poder dizer: sou "eu" quem estou a me comandar!

Se fosse tão bom ser esse tipo de gente
Não seria necessário transformar-se em monstro
cego, rotundo,
urro contido em máscaras e conceitos,
desfeito no conjunto mal cabido
de pensamentos
Vaidosos pensamentos que pensam ter conseguido... livrar-se de mim.

-- x --

Nino o sujeito cartesiano
Ponho o sujeito pra dormir
Vai, já vai tarde com todo o seu mau-humor de gente grande
Quero ser borboleta e dançar com o vento
Quero ser o vento e brincar de ser gente
Quem sabe... dança do ventre!
Menina travessa... índia, mãe, sereia...
Me dá a mão, vamos brincar
de roda e mandala, árvores e bichos, sonhos e fadas...
Canto de ninar...

Não quero despertar pro pesadelo
Voltar pro cativeiro
Pro tablado
Pra tortura

Dos ferros hipersimplificados
às tramas do universo organificado...
Sou sopro
Sou raio
E nunca mais, nunca mais eu volto, nunca mais eu caibo.

Quero transcender.

28 de mai de 2011

Morcegos

Morcegos rondam as sombras das sobras daquilo que foram árvores.
Árvores frondosas de sombras frondosas de frutos frondosos
-          saborosas imagens paradisíacas de encanto e satisfação.

Agora que a maldade arde num eterno entardecer,
E tudo o que se pode ver contra a luz é sombra e morte,
E agora que não há o que entrever,
Agora é que há de doer!
-          morcegos arranham o resto do tronco
e de cada corte vaza o invisível ser que já foi árvore.

A dor do tronco está na rigidez exaustiva.
A dor dos galhos, no abraço que nunca existiu.
A dor dos frutos é cair sem fecundar a boca de sabor.
E a semente dói de explodir sem saber no que vai dar.
Enquanto a raiz, ah, a dor raiz!
Está na única coisa que sempre quis... caminhar.

Inconfessável tristeza arranca da terra a planta que urra
Inconfessável tristeza levanta da terra a frágil saudação azul
E é tão difícil cercar-se de si até que a casca vire muro!
E é tão difícil ser muro e ser árvore, enfeitar e dar frutos!

Agora que a saudade é sombra sem frondosa forma,
E tudo o que se pode ver contra a luz... é tarde!,
E agora que não há o que ver,
Agora é que há de doer!
-          morcegos arranham o resto do tronco e de cada corte vaza o invisível ser que já foi árvore.

Todos querem ser John Malkovich

Hoje acordei num quarto que não era meu, num corpo que não era meu, e por mais que eu tentasse e apertasse os olhos, não conseguia voltar. Não era manhã, como então devia ser no meu quarto; nem era outono, pois este outro corpo não sentia frio. Ele simplesmente observava o teto, lendo sutis rachaduras e manchas úmidas como se pudesse extrair dali alguma coisa, música ou poesia. Na rua daquela tarde morna, um moroso vendedor de melancias passava barulhento. E eu, como puro pensamento, desejei de fato estar naquela lembrança alheia só para sentir o vento artificial que o velho ventilador despejava a cada "não" que fazia com sua cabeça...
Acordei como homem e estranha sensação de prazer fez com que percorresse aquelas mãos por aquele corpo... Freud dizia que seduzir é buscar o eu no outro. E eu estava ali, no outro tão desconhecido e ao mesmo tempo, tão eu!, sem saber se deveria fechar meus olhos e me entregar...
- Neste mórbido instante, algo catapultou-me para fora daquela lembrança alheia. Mãe que chama, cachorro que late, despertador que...? Não sei, não sei, que merda!
Talvez durante o sono eu tenha encontrado a porta-anã para a mente de meu próprio John Malkovich (referência ao filme TODOS QUEREM SER JOHN MALKOVICH).

15 de mai de 2011

Estranho

Enquanto enrolo o cabelo
me emaranho.
Mas não é devaneio!
É... estranho.

Mal chega a ser pensamento!
(Talvez um pouco de re-sentimento)
Algo de dentro quer arrebentar.

Vacilo.
Acimento.
Assimilo.
Vento.

Estranhamento que me embaraça
Sem graça
Me vejo
nua, sozinha, pequena
(sem certezas, sem cobertor).

Estranho,
me abraça!

Estranho
estupor.

8 de mai de 2011

Só mais um pouco de perfume

"Sou a mentira mais doce que alguém já cuspiu"

--I --

Só mais um pouco de perfume
E eu me dispo
A cama tem falta de sonho

Só mais um pouco de perfume
E eu me desfaço
Brisa de cálida fumaça
Esfumaço os cheiros
Desmancho abraços
Pálidas nuances de momentos
Tímidos fingimentos

Só mais um pouco de vento
E eu esvoaço

-- II --

Só mais um pouco de perfume
Só mais um pouco de caminho
Acalento, carinho, ternura
Abraço, clausura
Tormento

Só mais um pouco,
Um momento
Que depois deste vento
Pouco de nós vai ficar

Só mais um pouco
Um olhar

Transborda em mim o restante
O suspiro errante
E o beijo que quase existiu
Guarde de mim o que você sentiu
Um pouco de perfume marcando o caminho
Um pouco de amor circulando - carinho
Um pouco de vinho nos lábios... amor

Só mais um pouco de amor
E fecharemos a cúpula feita de sonhos
Onde cultivamos nossa história
Um pouco de rosa
A mais bela rosa do nosso jardim

Só mais um pouco e eu parto
Só mais um pouco, um retrato

E serei mais um rosto...

Ventania

As formas do vento
num alento ou num canto
Recanto das folhas
Ondas da alma
Ao relento das dobras
À sombra do acaso
O silêncio de um pranto:
Marasmo

Envolta revolta,
Sopranos em fúria
O manto desdobra
As rosas se abrem
O céu se desnuda
em nuvens, miragens
Um grito do vento
traz pingos de chuva

Melodia dos galhos
Os ralhos das árvores
Ventania da vida
Morte da tarde

Um vento se forma
Deforma a tempestade
E a calmaria consola
Pétalas no mármore

7 de mai de 2011

SER MÃE

SER MÃE


(à minha filha Cíntia)


Concha de cristal

com pérolas crescentes

Geratriz de esperança

e de amor transparentes

Bendito teu ventre,

Portal de Passagem

no Projeto de Deus

Semelhante à estalagem

dos anjos do céu.

VENTRE

VENTRE


Deserto infértil, sem viço

Outrora, solo fecundo

Cumpriu os deveres do serviço

Espargiu flores pelo mundo

Engrandeceu-se, grávido e rijo

Redondas formas, sangue e orgulho

Vidas conjuntas - paraíso

Vê agora que a espera era mergulho

no tempo que a tudo dá sumiço.


Mas os filhos dos filhos, inocentes,

virão se aninhar neste ventre

que, de amar se faz grande

e que, por amor, se faz quente

num dar à luz constante

Pois maternidade

não é recheio interno somente

É estado de espírito que se expande

e abraça o mundo como semente.

4 de mai de 2011

SINA


SINA


Viajo na rede

Viajo na cama

Viajo nos livros

Viajo nas telas

Viajo nas nuvens

Viajo na terra

Viajo na neve

Viajo no tapete

Viajo nos sonhos



Viajo na fumaça livre

do meu cigarro

Viajo no vento


Viajo sem carro,

sem carruagem

Viajo sem naves,

sem mulas

Viajo sem malas,

sem passagem

Viajo sem companhia

sempre sozinha


Passageira acorrentada

às almofadas macias

na torre do meu castelo

3 de mai de 2011

ONDE A VERDADE?





























ONDE A VERDADE?




Entre lustres e ralos,

deslizam venenos

sorvidos em gargalo



A verdade tem asas,

bocas e máscaras

Instala-se fantasma

nas paredes da casa.



Quebra-cabeça de peças esparsas



Na vidraça, uma luz-fumaça

cores estilhaçadas

O vitral de faces variadas

ilumina na medida exata

a vida que escapa.



A verdade pode ser mortalha,

ou uma simples batalha.


Mas é a escolha que atrapalha.




























7 de mar de 2011

Acalanto

Deito no leito branco - brumas me cobrem.


No colo longíneo da árvore-deusa,

entre folhas, entre irmãs,

desfaço-me - desimportância!

no sono coletivo nativo ancestral...

...Existência frugal.

Quando acordar,

de certo serei

menos eu,

com menos medo

e menos fome

Não preciso mais comer a maçã!

Reverencia

Ajoelha não.


Queda.

Queda e beija o ventre.

Meu corpo é vento. Templo.

Reverencia e contempla.

Depois, entra.

E celebra.

Que todas as mulheres da Terra

e todas as deusas maternas

habitam em mim.

Multicolorido

Manto multicolorido


- me abrigo e me desfaço!

No coração um sorriso

Na boca um afago

Canto multicolorido

...- mais um sopro, um abraço!

No corpo um amigo

Na alma - espaço.

Transcender

E se corro pelo corpo-montanha


E alcanço o topo da própria cabeça

Atiro-me precipício acima,

Alço voo, sou céu, sou águia

- E perco no pulo todas as palavras

...que não dão conta de dizer o que "sou".



Não quero ser.

Ser... dói.

Quero transcender.

Colorir.

Ventar.

Cantar.

Correr.

Orar.



Plena, plana, chão e nuvem.

Bicho e gente, também planta.

13 de dez de 2010

Alice

Acorda, Alice!
Espanta a meiguice dos olhos que nem remela!

Abre a janela e se espanta!
Esse sol jamais estampa manhãs amarelas!