15 de jun de 2010

Catacrese

Catacrese, mórbida, pairava no ar.
Bruxa milenar de aspecto obsceno,
Era espectro e medo com um rosto de maçã.

Mito e mulher com formas vãs,
Num vão da catapulta catava venenos,
Transformava os ventos,
Dissecava as vísceras,
Amava as virgens obscuras como quem traduz um versículo.

Um dia, porém,
Violaram sua cela,
Apagaram suas velas
E beberam seu sangue com vinho
Na volúpia de crenças alquimistas

Místicos ignorantes
Mendigos vorazes de uma metáfora constante,
De uma eternidade poética....

Deixaram Catacrese sobre as pedras de seu altar.

Na Rosa dos Ventos, um espinho.
No ar tinto,
Pétalas mortas deslizaram lentamente...

- Ah, o vinho das veias!

- Ah, o vinho da vingança!

Na lança da profecia a magia de uma maldição.
Cada cão que bebeu do seu sangue virou poeta,
E cada poeta sentiu nos rins as pedras do altar.

Cada palavra eternizou-se como metáfora,
Cada metáfora enterrou-se com Catacrese no pé de uma página.
O céu de todas as bocas que contra ela contracenaram
Encheu-se de estrelas,
E as bocas dos estômagos reclamaram
A fome e a miséria da literatura.
Os alhos mostraram seus dentes,
As cadeiras se abraçaram,
As árvores deram folha de papel.

Toda coisa, todo bicho, toda gente...
Nada escapou da maldição.

Rosa branca semi-viva,
Vingou-se Catacrese de sua catacumba,
Mas caiu na bulha, cataléptica,
Queimando-se a bula da criação.

A bruxa feiticeira derreteu como cera
Na fogueira da vingança.
Ficou como figura.

Figura de estranha linguagem que catava o vento
Para transformá-lo em “cata-vento”,
Catacrese purificou-se na magia do relento queimado.

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