26 de jul de 2010

Tourada

Insólito e insolúvel,
Macabro, dantesco, volúvel.
O Touro desfila em sua indecisão.

Vasculha a área num suspiro com mil cheiros.
Sacode as medalhas e argolas, tímido.
Percorre os olhos de aço sobre o público: mulheres se beijam, homens gargalham.
A podridão dos primeiros sentidos o embevece.
Não reconhece a morte, vestida com cheiros de rosa e detalhes de sangue.
Não compreende a vida - o perfume das bebidas lhe perturba a alma.
É festa! E comemoram a sua estupidez numa embriaguez infinita!

Só a morte não se manifesta, invisível.

Inocente, inofensivo.
Calado, animalesco, querido.
O Touro sorri sem aversão.

Percorre a arena e sente a marca de outros touros.
Pressente a mágoa, a maldição: mulheres cospem, homens gritam.
Entra no palco o toureiro que, impávido e terrível,
Envenena o ar com estouvos pensados.
Abana a capa de vermelho rubro,
Disfarça-se de Deus e ganha as rosas de um assassínio grotesco.

O povo delira, o sangue recende.
Aplausos caem sobre a arena, mas nenhum é para o animal que expira.

Combalido, atordoado...
Mais pela traição que pela dor do corpo,
O Touro estremece.
Percebe que a festa é seu funeral e que não há lágrimas para a sua desdita.

Mal respira.

Deslumbra no fosco o consolo da Morte e tomba em seus braços.
Não por ser o mais fraco ou imprudente.
Tomba por ser o mais humano, naquele momento.



Hors-concours do 3º Concurso de Poesia 99 - Universidade Cruzeiro do Sul.
Recitada no V Sarau Cultural da Unifesp-Guarulhos (julho/2010).

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