10 de ago de 2010

A canção da serpente

Quero inventar as cores e destruir as texturas
Colar no imaginar de um quadro
aquilo que me habita
Quem sabe vomitar imagens - negras, oníricas?!
Quem sabe sucumbir disforme... - poesia pira.

Quero roubar do céu o amarelo dos lampejos,
Quero roubar do ser o azul que me falta,
Quero espairecer e estravazar,
Vazar azul nos lampejos dos neurônios
Amar amarelo!
na loucura amarela da pintura atômica...

Explodir, dispersar, esvaecer.

Quem sabe morrer em milhares de pólens
e fazer brotar do chão de qualquer homem
sementimentos?

Meus braços se expandem e agarro essas cores.
Nada mais de palavras simbolizando ruídos.
Quero as cores do urro, do sussurro e do grito.

Perdura o perfume de pele,
a imagem do ouvido.
Quem sabe um pouco de boca,
figura louca,
urro articulado,
distúrbio,
grito musicado,
susto emudecido...
papiros.

Percorro a galeria de arquivos, abro gavetas
Revisito processos que o destino carpiu.
Sento, triste, ao piano que me pede o toque
- Onde estão suas teclas?

Fecho as cortinas pesadas,
Vestidos fúnebres da viúva janela,
saudosa.

Imagino meu testamento e lentamente me conformo.
Não existem mapas e Deus é homem,
miseravelmente homem.

No canto de um canto escuro,
escuto a canção da serpente.

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